Já em 2022, o fenómeno BookTok tinha gerado um número considerável de visualizações: quase 1,6 mil milhões de visualizações em cerca de 376 000 vídeos com a hashtag #BookTok, segundo a Actualitté, uma publicação especializada do setor editorial. Este fenómeno impulsionado pelos leitores, que surgiu no TikTok, tem hoje uma grande influência no setor do livro. Quando um livro se torna viral, os leitores exigem rapidamente a sua tradução para várias línguas, pressionando assim as editoras a acelerar os seus calendários de lançamento.
O sucesso de um livro no BookTok leva a um rápido crescimento das vendas, a prazos editoriais mais apertados e à capacidade de responder rapidamente às expectativas de um público internacional.
Perante esta pressão, a tradução baseada em IA pode parecer uma solução rápida. No entanto, a tradução literária não se resume a substituir uma palavra por outra: exige leitura, escrita, coerência e nuances. É precisamente quando os prazos se tornam mais apertados que a qualidade do texto pode ficar comprometida.
Em vez de opor a IA aos seres humanos, é mais pertinente focar as condições: quais são os prazos, qual é o nível de leitura de prova e quem é responsável pela versão final?
Prazos apertados: como a qualidade da tradução se pode deteriorar
Quando a janela de lançamento se estreita, a tradução literária fica sob uma pressão significativa. Neste contexto, as limitações das traduções geradas por IA tornam-se rapidamente evidentes: variações de registo, inconsistências e formulações demasiado próximas da língua de origem.
Por vezes, pequenos pormenores bastam para revelar uma tradução inexata: uma personagem que muda subitamente de registo, uma expressão que soa pouco natural ou um elemento da narrativa formulado de modo diferente de um capítulo para o seguinte. Por outro lado, quando uma tradução é bem-sucedida, o leitor deixa de pensar no texto original: lê com naturalidade.
Por que razão a tradução literária é uma profissão centrada na escrita e na pesquisa
Traduzir um texto literário não se resume a transmitir o significado. Implica produzir um texto de chegada que mantenha a consistência do princípio ao fim: diálogo, ritmo, tom, humor, subtexto e coerência global. Por outras palavras, a tradução é também um ato de escrita. Numa entrevista publicada pelo British Council, o tradutor literário Daniel Hahn descreve a tradução como um ato interpretativo e criativo, em que cada tradução difere do original e implica decisões constantes sobre como transmitir o significado noutra língua.
Na prática, uma tradução literária de elevada qualidade depende frequentemente de quatro elementos:
- Estilo narrativo
- Ritmo
- Significados implícitos (subtexto)
- Consistência ao longo de toda a obra
Uma tradução pode ser exata em termos de significado e, ainda assim, ser inadequada se não transmitir a energia do texto: ironia, emoção, tensão ou ambiguidades deliberadas.
A pesquisa é muitas vezes invisível, mas decisiva. Verificar uma referência cultural, compreender expressões dialetais, identificar a fonte de uma citação ou uniformizar a terminologia recorrente ajuda a evitar inconsistências entre capítulos.
Tradução automática e pós-edição: que impacto têm na qualidade?
Antes de emitir um juízo, vale a pena clarificar os termos. Alguns equívocos decorrem da confusão entre “tradução automática” e “pós-edição”, embora os seus objetivos e resultados não sejam os mesmos.
A tradução automática produz um texto gerado por um sistema informático. Pode ajudar a compreender o significado geral ou a gerar uma primeira versão, mas não garante o estilo, a coerência ou a intenção literária do texto.
Como estabelece a ISO 17100, a qualidade da tradução assenta num processo estruturado que inclui tradução, revisão por um segundo profissional e uma verificação final, para garantir a consistência e a fiabilidade do texto.
A pós-edição consiste em corrigir e melhorar um texto traduzido automaticamente. Consoante o objetivo, as correções podem ser ligeiras ou mais substanciais, chegando por vezes à reescrita completa do texto. Nesta fase, o foco está na adaptação de conteúdos especializados, garantindo a exatidão terminológica e a consistência do significado, uma exigência que também se aplica à tradução técnica. Para aprofundar a metodologia e os níveis de revisão, o nosso artigo “O que é a pós-edição?” descreve este processo num contexto profissional.
Na literatura, a pós-edição não se limita à simples correção: implica um verdadeiro trabalho editorial, incluindo a harmonização do estilo e uma revisão cuidada.
Edição e inteligência artificial: por que razão o debate se torna cada vez mais concreto
A recente decisão da editora neerlandesa VBK de testar traduções para inglês geradas por IA para um número limitado de livros ilustra as escolhas cada vez mais concretas que as editoras enfrentam: como equilibrar rapidez, custo e responsabilidade.
Esta tendência também afeta outras indústrias culturais. Na localização de manga, a corrida aos lançamentos simultâneos também se está a tornar uma questão central. O artigo da Slator sobre a GlobalComix mostra como algumas plataformas procuram acelerar a publicação, sobretudo em resposta à circulação de conteúdos não autorizados.
Na edição digital, a tradução de websites também desempenha um papel fundamental para garantir a visibilidade internacional das obras e a sua disponibilidade em diferentes línguas.
Esta aceleração tem, porém, um custo humano. Um artigo recente sobre a indústria dos videojogos destaca como a procura de produtividade pode relegar os conhecimentos especializados para segundo plano, com potenciais consequências para a qualidade e as nuances do texto final.
O que a IA pode realmente oferecer
Quando utilizada como ferramenta de apoio, a IA pode ser útil em tarefas específicas:
- Documentação
- Identificar repetições
- Ajudar a manter a consistência terminológica
- Sugestões iniciais de formulação quando uma frase é difícil de traduzir
Por outro lado, não garante aquilo que dá valor a uma tradução literária: coerência textual, ironia, humor, subtexto ou adaptação cultural subtil. A verdadeira questão não é se a IA é boa ou má, mas o enquadramento em que é utilizada.
Um compromisso realista consiste em reservar a IA para as etapas preparatórias: identificação de termos, criação de glossários e sugestões iniciais de formulação. A revisão humana deverá, então, centrar-se no estilo: na precisão das imagens evocadas e na consistência do registo ao longo de todo o texto. Este processo ajuda a evitar traduções demasiado padronizadas, sem deixar de cumprir prazos apertados.
Um método prático para preservar a qualidade com prazos apertados
Quando o tempo é limitado, a solução não é acelerar o processo a qualquer custo, mas proteger a coerência do texto. Um método simples pode reduzir os erros.
1) Definir o âmbito antes de traduzir
Uma definição inicial clara do âmbito ajuda a evitar vários erros: escolha do registo, uso de formas de tratamento informais ou formais, listas de nomes próprios, um pequeno glossário de elementos recorrentes e voz narrativa (narrador, personagens). Mesmo uma breve fase de definição do âmbito pode evitar muitas variações desnecessárias.
2) Tratar a pós-edição como reescrita
Se for utilizada a pós-edição, o objetivo tem de ser claro: produzir um texto final legível e natural, sem parecer gerado por uma máquina. Isto implica, por vezes, reescrever parágrafos inteiros.
Um bom hábito a adotar é reler as cenas-chave como leitor: o início, os pontos de viragem da narrativa e o final.
3) Implementar um controlo de qualidade direcionado
Um controlo de qualidade direcionado pode ajudar a evitar inconsistências importantes:
- Verificar elementos recorrentes
- Verificar a consistência do estilo entre passagens distantes
- Fazer uma leitura de prova cuidada do início, de um momento-chave e do final
A ideia não é rever tudo com o mesmo nível de detalhe, mas concentrar os esforços nas passagens que mais afetam a qualidade percebida.
4) Não negligenciar a etapa editorial final
Quando a tradução é coerente, o formato tem de acompanhar: pontuação, tipografia, consistência das escolhas e layout. Uma etapa de paginação ou edição eletrónica (DTP) ajuda a garantir a qualidade percebida e o conforto de leitura, sobretudo em textos densos.
Como aumentar a rapidez sem sacrificar o estilo
Para equilibrar as exigências de qualidade e os prazos, a abordagem mais fiável continua a ser um processo em que uma pessoa real é responsável pelo texto final. É isso que um serviço de tradução estruturado deve garantir: definição do âmbito, leitura de prova, consistência editorial e controlo da qualidade.
Quando o projeto envolve vários tradutores, uma série de publicações ou conteúdos publicados em diferentes plataformas, a organização torna-se ainda mais importante, facilitando a troca de comentários, harmonizando as escolhas e preservando a consistência global.
Conclusão
A IA pode tornar-se um apoio útil, mas apenas se for protegido aquilo que dá valor a um texto literário: voz, nuances, ritmo e responsabilidade editorial. Sem um enquadramento claro, a pós-edição pode aparentemente poupar tempo, mas resultar numa perda de qualidade. Com uma metodologia rigorosa, porém, pode ajudar a cumprir os prazos, respeitando a escrita.
Em última análise, a questão essencial mantém-se: que nível de qualidade pretende oferecer ao leitor? Na tradução literária, a IA pode servir de apoio, mas só uma pós-edição humana rigorosa pode preservar a qualidade do texto a longo prazo.
Ahlaam Abdirizak is a first-year Master's student in International Business Development in Angers and a Marketing Assistant at AbroadLink Translations. Trilingual, with roots spanning both Africa and Europe, she combines her multicultural background with a passion for digital marketing. Creative by nature, she has a particular interest in producing multilingual content.