A questão surge constantemente entre fabricantes, importadores, distribuidores, pessoas responsáveis pela conformidade regulamentar (PRRC) e equipas de qualidade e regulamentação: a tradução por IA é ou não autorizada segundo o regulamento RDM (UE) 2017/745?
Resposta curta: sim, o uso de ferramentas de IA é autorizado nas traduções, mas a sua utilização está sujeita a regras e condições. Na prática, alguns auditores ou organismos esperam evidências de controlo do processo, o que pode dar a impressão de que “a IA é proibida”… quando o problema é sobretudo a ausência de controlo, de rastreabilidade e de validação.
1) O enquadramento teórico: que documentos regulamentam a tradução para dispositivos médicos?
O RDM 2017/745: requisitos linguísticos e de informação, não um método de tradução
O RDM regula de forma rigorosa o conteúdo e a qualidade das informações fornecidas com o dispositivo (rotulagem, instruções de utilização, etc.). Salienta, nomeadamente, que as instruções e informações devem ser redigidas em termos facilmente compreendidos pelo utilizador previsto. Ou seja: independentemente da ferramenta, o texto final deve ser compreensível, coerente, fiel e seguro.
O RDM prevê também requisitos linguísticos: as informações fornecidas com o dispositivo devem estar disponíveis numa ou mais línguas oficiais exigidas pelo Estado-Membro onde o dispositivo é disponibilizado. Esta questão é frequentemente regulada por medidas nacionais, o que justifica uma abordagem país a país.
Aspeto fundamental para a tradução com IA: o RDM não diz “deve traduzir desta forma”. O que diz, no entanto, é que deve garantir que a informação fornecida é “completa e correta” e que deve ser capaz de o demonstrar através de um sistema de qualidade.
O Regulamento da IA: não uma proibição, mas um quadro de riscos e obrigações
O Regulamento da IA estabelece um quadro horizontal: definição dos sistemas de IA, obrigações dos intervenientes, requisitos reforçados para determinados sistemas de alto risco, etc. À semelhança do RDM, o Regulamento da IA não proíbe a utilização da mesma, mas salienta que esta deve ser devidamente enquadrada, nomeadamente através da governação, da supervisão humana, da confidencialidade e da gestão dos dados.
2) O que autoriza o RDM quanto à “tradução com IA”?
No âmbito da tradução de dispositivos médicos, o RDM não menciona a IA. Também não utiliza termos como “tradução humana obrigatória” ou “tradução automática proibida”. Em vez disso, impõe requisitos que têm impacto direto na tradução: a informação deve ser facilmente compreendida pelo utilizador previsto; a rotulagem e as IFU devem conter elementos obrigatórios; a conformidade deve ser demonstrável no âmbito de um sistema de gestão de qualidade e de documentação controlada.
Então, a verdadeira questão deve ser: pode provar que a tradução final é fiável, verificada e controlada?
Porque surge a “suposta proibição” nas auditorias
Alguns auditores pedem evidências de que a tradução não foi “realizada com recurso à IA”. Este tipo de pedido pode resultar de uma má formulação (o auditor refere-se a um processo não controlado ou demasiado artesanal), de uma maior sensibilidade ao risco para o doente ou de uma procura de rastreabilidade (versão de origem/de destino, gestão das alterações, validações). Num artigo anterior, publicado em outubro de 2025, sobre o uso da IA na tradução, falávamos do “Quem?” e do “Como?”
Quem é a pessoa que utiliza a IA? Trata-se de um profissional de tradução ou de uma pessoa não qualificada para esta tarefa?
Como? Em referência à ferramenta utilizada. Trata-se de um LLM (Large Language Model) acessível ao público em geral ou de uma ferramenta concebida e adaptada especificamente para a tradução?
Em função do “Quem?” e do “Como?”, o resultado não é o mesmo, e é isso que verdadeiramente interessa ao auditor.
3) A prática: garantir uma utilização segura da IA na tradução
Num contexto RDM, o que está em causa não é a utilização da IA em si, mas a capacidade de controlar os seus riscos e de demonstrar a conformidade do processo.
Para garantir uma tradução médica conforme com os requisitos regulamentares e as expectativas dos organismos notificados, é necessário implementar vários elementos fundamentais:
- Ferramentas adequadas: utilizar soluções de IA profissionais que garantam confidencialidade, coerência terminológica e rastreabilidade
- Responsabilidade humana: confiar a tradução ou a sua supervisão a um profissional qualificado, que domine o contexto RDM/RDIV
- Revisão sistemática: assegurar a revisão, correção e validação humanas de cada tradução gerada por IA
- Validação documentada: integrar a aprovação final no sistema de qualidade (ISO 13485) com as respetivas evidências
- Controlo terminológico: apoiar-se em glossários validados para os conteúdos críticos (IFU, rotulagem, segurança)
- Rastreabilidade completa: conservar as versões, as validações e as ferramentas utilizadas para responder aos requisitos de auditoria
Na prática, é a combinação destas medidas que permite utilizar a IA em conformidade, reduzindo simultaneamente os riscos regulamentares e garantindo a segurança dos processos de tradução.
4) Como assegurar uma utilização da IA em conformidade?
Se um auditor disser explicitamente: “prove que isto não foi feito com IA”, é essencial recentrar a discussão não na ferramenta, mas no controlo do processo e nas evidências associadas.
Recordemos que o objetivo é demonstrar que a tradução é verificada, validada e conforme, independentemente do meio utilizado.
Para isso, pode apoiar-se em:
- Procedimentos documentados: descrição clara do processo de tradução e revisão (funções, responsabilidades, critérios de aceitação)
- Evidências de qualificação: competências dos intervenientes e seleção dos prestadores de serviços
- Registos de validação: listas de verificação, correções, aprovações formais e históricos de revisão
- Gestão documental: controlo de versões, alinhamento entre origem e destino e acompanhamento das alterações
- Justificação do controlo: demonstração de que os conteúdos críticos (advertências, segurança, IFU) são objeto de atenção reforçada
- Enquadramento da IA (se utilizada): descrição da ferramenta utilizada, das medidas de supervisão, das restrições de utilização e da gestão de dados
Numa auditoria, o que se espera não é a ausência de IA, mas a capacidade de provar que a sua utilização é controlada, verificada e sem impacto na conformidade.
5) Conclusão
A tradução por IA não é proibida pelo regulamento RDM 2017/745. O texto regula sobretudo a qualidade e os processos de gestão das informações fornecidas. O Regulamento da IA também não a proíbe, recorda as mesmas necessidades de controlo das ferramentas e dos processos, nomeadamente através da governação e da gestão dos riscos.
Para evitar as não conformidades ligadas ao uso da IA, tanto nas traduções como em qualquer outra utilização relacionada com o dispositivo médico, o importante é descrever e documentar o fluxo de trabalho, a ferramenta utilizada, a governação e o processo de validação.
Em última análise, a IA deve ser tratada como uma ferramenta de assistência no âmbito de um processo de qualidade controlado.
Se recorrer a serviços externos, uma empresa de tradução especializada no setor dos dispositivos médicos saberá enquadrar este fluxo (revisão, terminologia, evidências, confidencialidade), ajudando-o simultaneamente a cumprir os prazos e os requisitos linguísticos.
With a background in Marketing and International Trade, Alex has always shown a passion for languages and an interest in different cultures. Originally from Brittany, France, he has lived in Ireland and Mexico before spending some time back in France and then settling permanently in Spain. He works as Chief Growth Officer at AbroadLink Translations.