Num manual de manutenção, num manual de instalação ou num procedimento de segurança, uma frase ambígua pode provocar um problema de compreensão, atrasando uma intervenção, multiplicando os pedidos de esclarecimento ou levando a uma interpretação errada. Quando o documento tem de ser posteriormente traduzido, cada imprecisão da versão de partida propaga-se a todas as línguas de chegada.
Compreender como o Simplified Technical English melhora a tradução de documentos técnicos pressupõe, por isso, examinar a qualidade do texto antes da sua tradução. Esta linguagem controlada estabelece regras para o vocabulário, a gramática e a estrutura das frases, de modo a produzir conteúdos mais claros e mais coerentes, facilitando assim o trabalho dos redatores, dos tradutores, dos revisores e, sobretudo, dos utilizadores finais.
O que é o Simplified Technical English?
O Simplified Technical English é uma linguagem controlada concebida originalmente para a documentação de manutenção no setor aeronáutico. O seu objetivo não é empobrecer o conteúdo técnico, mas limitar as formulações suscetíveis de serem compreendidas de várias formas. A norma ASD-STE100 associa regras de redação a um dicionário de palavras aprovadas.
A nona edição, publicada a 15 de janeiro de 2025, inclui 53 regras e cerca de 900 palavras aprovadas. Cada palavra de uso geral está, tanto quanto possível, associada a um único significado e a uma única categoria gramatical. As empresas podem, contudo, manter os nomes e os verbos técnicos próprios dos seus produtos, dos seus processos ou do seu setor.
Esta abordagem explica por que razão o STE não se reduz a uma forma simplificada do inglês. Trata-se de um método estruturado, documentado e verificável. Uma apresentação das regras do inglês técnico simplificado (fonte em francês) permite compreender os seus principais fundamentos, enquanto o site oficial da ASD-STE100 apresenta as regras e o dicionário da norma.
Como o Simplified Technical English melhora a tradução de documentos técnicos
A primeira melhoria ocorre antes da tradução. Um texto de partida redigido em STE contém menos sinónimos desnecessários, menos pronomes com referentes incertos e menos construções sintáticas complexas. O tradutor tem, por isso, de resolver menos ambiguidades e pode dedicar mais tempo à exatidão técnica.
A segunda melhoria diz respeito à coerência. Quando uma mesma ação, uma mesma peça ou um mesmo estado é sempre designado da mesma forma, as memórias de tradução encontram mais correspondências fiáveis. Os segmentos recorrentes são mais fáceis de reutilizar, os glossários são mais simples de manter e as divergências entre versões diminuem.
As regras do STE que têm maior efeito na tradução
O STE recomenda, nomeadamente, utilizar as palavras aprovadas com o significado previsto, evitar grupos nominais demasiado longos, privilegiar a voz ativa e redigir frases curtas. Recomenda também limitar cada frase a uma única instrução e cada parágrafo a um único assunto.
Consideremos a seguinte formulação: «After completion of the pressure check, removal of the protective cover should be carried out.» Contém uma nominalização, uma construção na voz passiva e uma formulação indireta da ação. Uma versão mais próxima do STE seria: «Complete the pressure check. Then remove the protective cover.» O tradutor identifica imediatamente as duas ações, a sua ordem de execução e a pessoa responsável pela sua realização.
Estas regras reduzem várias dificuldades frequentes:
- as palavras polissémicas que mudam de significado consoante o contexto;
- os pronomes como «it» ou «they» cujo antecedente é incerto;
- as longas sequências de nomes difíceis de segmentar;
- as frases que misturam uma condição, uma ação e um resultado;
- as variantes terminológicas que, no entanto, designam o mesmo componente.
Uma melhor qualidade em cada etapa do fluxo de tradução
O STE melhora, em primeiro lugar, a qualidade do texto de partida. Esta melhoria é essencial, pois uma tradução fiel não pode compensar totalmente uma instrução mal estruturada. Como indicado no nosso artigo dedicado à redação e à tradução de manuais técnicos, a qualidade da tradução depende também do rigor do documento de partida, nomeadamente da utilização de uma terminologia coerente e de regras de redação claramente definidas.
Um redator com formação em STE torna mais explícitas as relações entre as ações, os objetos e as condições. As formações universitárias dedicadas ao STE também insistem na produção de documentação compreensível e sem ambiguidades para os leitores não anglófonos.
Durante a tradução, um texto controlado integra-se mais eficazmente nas ferramentas de tradução assistida por computador. As memórias de tradução reconhecem mais facilmente os segmentos recorrentes, enquanto as bases terminológicas assinalam os desvios de vocabulário. A tradução automática também pode produzir um resultado mais previsível quando as frases de partida são regulares, embora continue a ser necessária uma revisão humana especializada para os conteúdos sensíveis.
A última etapa é a validação. O revisor linguístico pode concentrar-se na coerência e na legibilidade, enquanto o especialista da área verifica a conformidade técnica. Para documentação destinada a vários mercados, um processo de tradução profissional coordenado com a redação do documento de partida evita tratar separadamente problemas que têm a mesma origem.
Terminologia, memórias de tradução e redução do retrabalho
Num corpus técnico não controlado, um mesmo componente pode ser designado pelos termos «cover», «panel», «lid» ou «protection», consoante os autores. Mesmo quando estes termos parecem próximos, nem sempre são intercambiáveis. O STE impõe uma disciplina lexical que obriga a empresa a distinguir os verdadeiros sinónimos dos termos que têm uma função precisa.
Estes benefícios são particularmente percetíveis na tradução técnica de manuais volumosos ou atualizados regularmente. Também o são na tradução de manuais de instruções, em que uma formulação curta deve permanecer precisa apesar das restrições de paginação, segurança e conformidade.
Os limites do STE
O STE não substitui os conhecimentos técnicos especializados. Uma frase pode respeitar todas as regras linguísticas e continuar incorreta do ponto de vista técnico. O documento deve ser sempre validado por uma pessoa que conheça o produto, os riscos, as normas aplicáveis e as práticas do setor.
Também não substitui uma estratégia terminológica. O dicionário ASD-STE100 estabelece regras para o vocabulário geral, mas cada empresa deve definir os seus nomes de componentes, os seus verbos técnicos, as suas abreviaturas e as suas regras de denominação. Sem esta governação, as incoerências terminológicas próprias da área reaparecem nos textos.
Textos como um documento de marketing, um relatório científico ou um texto jurídico podem exigir outro estilo. Mesmo na documentação técnica, convém decidir se se aplica rigorosamente a ASD-STE100 ou se se cria um guia de redação controlada inspirado nos seus princípios.
Como implementar o STE num projeto multilingue
A implementação começa por uma auditoria. Esta auditoria permite identificar as frases demasiado longas, os sinónimos, as ambiguidades, as variações de terminologia e os conteúdos frequentemente retraduzidos.
A empresa pode lançar um projeto-piloto com um documento prioritário ou de grande importância: um procedimento de manutenção, um guia de instalação ou um manual de segurança. O processo deveria incluir as seguintes etapas:
- definir o âmbito e o nível de aplicação do STE;
- constituir, rever ou harmonizar a terminologia especializada;
- formar os redatores e os revisores;
- integrar as regras nos modelos e nas ferramentas de redação;
- traduzir um corpus-piloto e medir os desvios;
- ajustar o guia antes de uma implementação mais alargada.
É possível, nomeadamente, acompanhar o número de pedidos de esclarecimento dirigidos aos redatores, de correções terminológicas, de incoerências detetadas na revisão e de segmentos reutilizados, bem como o tempo dedicado às atualizações.
Em que setores é o STE mais útil?
Na indústria aeronáutica, o site do ASD-STE100 (fonte em inglês) ilustra a sua utilização na análise e redação de documentação de manutenção. A Universidade Livre de Bruxelas (fonte em inglês) apresenta igualmente o STE como uma linguagem normalizada destinada a tornar a documentação técnica clara e inequívoca.
Os seus princípios são, contudo, úteis em numerosos setores: máquinas industriais, energia, transportes, dispositivos médicos, eletrónica, software, equipamentos de laboratório ou serviços pós-venda. O recurso a uma linguagem controlada é particularmente vantajoso quando as instruções são repetitivas, traduzidas para várias línguas, essenciais para a segurança ou atualizadas regularmente.
Os trabalhos de Richard Ryan sobre as linguagens controladas mostram que estas podem ajudar o tradutor a produzir documentos técnicos (fonte em francês) mais legíveis, coerentes e fáceis de utilizar. Ao estabelecerem regras para o vocabulário e a estrutura das frases, contribuem para melhorar ao mesmo tempo a produtividade da tradução e a ergonomia (fonte em francês) do documento final.
Conclusão: melhorar a tradução começando por melhorar o texto de partida
O Simplified Technical English melhora a tradução de documentos técnicos porque trata as causas dos erros antes da sua propagação. Reduz a ambiguidade, estabiliza a terminologia, simplifica a estrutura das instruções e torna os controlos mais sistemáticos.
A sua adoção não deve ser encarada como a simples aplicação de um conjunto de regras linguísticas, e a sua implementação deve envolver as equipas responsáveis pela redação, pela engenharia, pela terminologia, pela tradução e pela gestão de conteúdos.
Ahlaam Abdirizak is a first-year Master's student in International Business Development in Angers and a Marketing Assistant at AbroadLink Translations. Trilingual, with roots spanning both Africa and Europe, she combines her multicultural background with a passion for digital marketing. Creative by nature, she has a particular interest in producing multilingual content.